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Meninas negras adotam valores de brancas
Levantamento em escola da capital mostra que alunas não assumem características de afrodescendentes
Fonte: Jornalunesp – Julho/ 2007
Num estudo que fez entre alunas de um Centro Educacional Unificado (CEU), na capital paulista, a pedagoga Roseli Figueiredo Martins verificou que as meninas negras desejam possuir padrões estéticos de meninas brancas, como cabelos lisos e compridos. A constatação foi feita no mestrado que realizou na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT), câmpus de Presidente Prudente, com a orientação da docente Gislene Aparecida dos Santos, do Departamento de Educação.
As atitudes das meninas foram avaliadas em atividades lúdicas como desfile de moda, teatro e sessões de estórias infantis. “Em geral, as reações das estudantes mostraram conflitos de identidade racial”, assinala Roseli. Segundo a autora, o foco do trabalho foi saber como as meninas negras estariam construindo sua identidade para além de preconceitos.
O desejo de mudança do tipo de cabelo foi manifestado durante um desfile de moda, em que foram oferecidas perucas loiras, morenas e negras para 26 meninas de 10 anos de idade, sendo 12 negras e 14 brancas. “Apenas três das meninas negras escolheram o modelo black, com cabelos característicos da maioria dos afrodescendentes”, assinala a pesquisadora.
Identidade negada
A sessão de estórias infantis, segundo a autora do estudo, também evidenciou o racismo inconsciente das garotas. Após ouvir as estórias Cinderela, Branca de Neve e os sete anões, Rapunzel, protagonizadas por personagens brancos, e O príncipe dos destinos e Bruna e a galinha d’angola, cujos personagens principais são negros, as estudantes revelavam suas preferências, escrevendo e desenhando o tipo de príncipe que achavam mais atraente.
“A opção pelos brancos serviu para revelar a percepção negativa que têm de si mesmas”, aponta a pesquisadora, que constatou a escolha em conversas com as crianças. “Trata-se de uma fantasia que se alicerça na idéia de harmonia entre as raças e se dá por meio da negação de alguns traços da identidade negra.”
Para a orientadora Gislene, a sociedade brasileira não valoriza sua própria diversidade racial. “Observamos nesse estudo que as meninas negras incorporam os padrões disseminados por meio de livros, revistas, televisão e nas escolas, o que implica a negação daquilo que são e resulta em dor e sofrimento para elas mesmas”, afirma.
Para Roseli, a sociedade e as escolas têm feito pouco para que as meninas negras construam uma identidade positiva. “É preciso que as instituições de ensino divulguem os heróis negros e as resistências às brutalidades que sofreram na época da escravidão, pois é por meio da educação que se pode derrubar estereótipos”, finaliza.
Julio Zanella